Sonja Helga Trude Stegmann (1933 – 2021)
Sonja Helga Trude Stegmann — carinhosamente conhecida como Helga ou Oma Helga — nasceu em janeiro de 1933 em Schwenningen am Neckar, no sudoeste da Alemanha, na mesma casa de sua avó materna, Anna. Sua trajetória de vida tornou-se uma impressionante ponte de resiliência e pioneirismo entre a Europa e o Brasil.
O Pioneirismo nos Sertões do Paraná (Castro e Rolândia)
Com apenas um ano e meio de vida, em julho de 1934, Helga cruzou o Oceano Atlântico nos braços de sua mãe, Frieda Stegmann, para reencontrar o pai, Wilhelm Stegmann, que desbravava o interior paranaense.
• A Infância em Castro (Colônia Terra Nova Garcez): Cresceu em um ambiente rústico e desafiador. Aprendeu o português nas brincadeiras com a amiguinha cabocla Odete e, de forma autodidata, foi alfabetizada em alemão decifrando os romances da mãe.
• O Êxodo para o Norte (1944): Após a perseguição e a prisão temporária do irmão Walter durante a Segunda Guerra Mundial, a família migrou para o Norte do Paraná. Helga e a mãe viajaram de trem, enquanto os homens conduziam a mudança em uma carroça, salva heroicamente pelo cavalo Rosílio nas escarpas da serra.
• Juventude e Ofício: Em Rolândia, Helga entregava leite a cavalo, auxiliava nas tarefas domésticas e descobriu sua vocação na máquina de costura. Sob a mentoria de Dona Inês, tornou-se uma talentosa modista e costureira de vestidos de noiva. Além disso, atuou no comércio, cantou no coral luterano e participou do teatro amador no Clube Concórdia.
O Retorno à Europa e o Encontro com Siegfried
Em 1954, aos 21 anos, Helga decidiu retornar à Alemanha. Estabeleceu-se em Stuttgart, onde ficou noiva de Eugen Heid Jr. A trágica e repentina morte do noivo em novembro de 1955 mergulhou-a em um profundo luto, levando-a a buscar refúgio em sua cidade natal, Schwenningen.
Para superar a dor, ingressou na fábrica de relógios Kienzle Uhrenfabriken, trabalhando no setor de acabamento de relógios de cabeceira. Foi nos pavilhões da fábrica que seu caminho cruzou o de Siegfried Christoph Appel, jovem relojoeiro refugiado de Breslau. A cumplicidade e o respeito mútuo floresceram em matrimônio, celebrado em 13 de junho de 1958. Em 28 de fevereiro de 1959, nasceu em Schwenningen a primogênita do casal, Ilona Ingrid.
Raízes na Terra Roxa e a Família
Atendendo a um apelo materno de Frieda, Helga e Siegfried imigraram para o Brasil em 1959. Após um breve período em Londrina (Avenida Higienópolis), fixaram-se definitivamente em Rolândia em 1961, na histórica esquina das ruas Santos Dumont e Hugo Maria do Vale, onde Siegfried fundou a conceituada Oficina Breslau.
O lar completou-se com a chegada dos outros dois filhos brasileiros: Roger Roland (17/11/1962) e Angela Gertrud Appel (25/09/1965)
Helga manteve sua prestigiada atividade de costura — atendendo clientes ilustres como a Sra. Mai, esposa do Dr. Hans Werner Mai — e foi o esteio do equilíbrio e da alegria da casa.
A Mãe-Fortaleza e a Guardiã da Memória (Pós-1972)
A perda repentina de Siegfried em fevereiro de 1972 colocou Helga diante da missão mais dura de sua vida: criar sozinha três filhos pequenos em uma terra ainda em desenvolvimento.
Com a mesma altivez e fibra de sua sogra Gertrud na Alemanha, Helga assumiu as rédeas do lar. Trabalhou incansavelmente como modista, protegeu a formação moral e educacional dos filhos e garantiu que o futuro da família prosperasse. Com a assistência jurídica do Dr. Hans Werner Mai (In Memoriam), obteve a salvaguarda dos direitos previdenciários da família junto à Alemanha.
Helga foi também a guardiã primordial da história da família. Ao longo de décadas, preservou zelosamente cartas da Cruz Vermelha, laudos do cativeiro, fotografias raras, passaportes e as telas a óleo do marido. Foi ela quem batizou a icônica pintura "As Paixões de Siegfried", decifrando para os filhos a alma artística do relojoeiro.
Legado e Falecimento
Dona de um bom humor contagiante, generosidade e afeto sem limites, tornou-se a inesquecível "Oma" para seus netos e bisnetos. Faleceu em 2021, aos 88 anos de idade.
Sonja Helga Stegmann Appel deixou como testamento a coragem das pioneiras: a mulher que transformou a poeira e as cicatrizes do século XX em um solo fértil de amor, união e memória viva